29 de dezembro de 2008

muda de vida ...

Há uns dias fui à casa nova do Alessandro (que divide o apartamento com a Anna que é polaca) almoçar uma bela de uma pasta à la carbonara feita pelo próprio.

BUONISSIMA!
(os italianos com quem me dou por aqui começam a surpreender-me ... mas fica para outro post)

Depois da sobremesa e do café, deixamo-nos ficar sentados na converseta que, inevitavelmente, acabou por parar nos 'muros' que nós (emigrantes) somos obrigados a enfrentar e o grau de saturação que todas essas adversidades nos provocam.
Comentamos sobre a situação de alguns colegas de trabalho e desabafamos sobre nós próprios.
Como o Alessandro já tem raízes na Bélgica e já cá está a morar há três anos, deixou-me a mim e à Anna (pronuncia-se 'Ania') num belo de um tête-à-tête.

Afinal, não sou a única pessoa a julgar que as coisas são bem mais fáceis na visão de quem está do lado de fora, isto é, em Portugal.

Uma vez que eu já ando há uns meses a puxar constantemente o tópico 'regresso definitivo sem trabalho', amigos e família têm insistido para eu ter calma e não me precipitar, para depois não me arrepender.
Palavra de honra que reconheço a preocupação. No entanto, só quem está fora do Ninho (há um ano!) é que sabe o quanto custa ter de enfrentar as diferenças de um país totalmente oposto àquele a que sempre estivemos habituados, para não falar no quão difícil é ter de abdicar de tudo o que nos provocava 'aquele' verdadeiro conforto.

Passo a falar na 1ª pessoa do singular ...
Sem me aperceber muito bem, com o passar dos meses, a distância acabou inevitavelmente por provocar o meu afastamento de tudo e todos.
Custa-me imenso não poder acompanhar de perto o crescimento dos cães todos que agora temos na Quinta; custa-me não ter o ar fresco da Serra e o cheiro da lenha a queimar na lareira; custa-me não ter 'aquela' paz e sossego aos Domingos depois do almoço em família; custa-me muito não ouvir o 'Sarinha' da minha mãe e da minha tia; custa-me perder oportunidades de ver a minha irmã moer o juízo ao meu irmão; custa-me ver a saúde do avô Sebastião a ir-se; custa-me não estar com a família na Bajarda aos Domingos à noite; custa-me não poder ter aqueles serões com o Fé e resto da canalha ... Custa-me imenso não estar na casa de Lisboa com o meu irmão; custa-me não fazer ronha no Divani; custa-me não poder marcar encontros com Patrícia para lanchar; custa-me não poder desafiá-la para um dia de praia ou até mesmo um fim-de-semana na Boavista e praia até mais não em Odeceixe; custa-me não poder fugir uma tarde inteira para a esplanada do Pão de Canela com um livro ou um Moleskine debaixo do braço; custa-me não poder ir aos concertos de música e aos serões com os Hi-5ive; custa-me não poder almoçar com a tia Glória e prima Paulinha no fim-de-semana, com um eventual passeio pelo Chiado ou Baixa; custa-me não percorrer Lisboa de acima abaixo na noite de Santo António; custa-me não poder dar as minhas corridas no Estádio Universitário de Lisboa; custa-me não conseguir fazer mais pelo meu bem-estar ... Custa-me pela p*** da vida não ter sol!
Enfim, custa-me muita coisa e isto nem 1/4 é da lista.

Pior se torna quando, a meio da viagem, se conhece alguém que tem tudo para me preencher e ser preenchido e a distância não permite o desenvolvimento natural da relação.
Por muitos telefonemas que se façam, por muitas sessões de sucaipe e éméssiéne (como ele escreve) que se façam, não é a mesma coisa ... e o facto de ele insistir no 'quero esperar por ti' só provoca mais dor, desgaste, ansiedade e tristeza.
Morro por não poder arrepiar-me com o toque tão doce e puro que ele tem; morro por não poder sentir o aconchego dos abraços tão bons que ele dá; morro por não poder sentir os beijos quentinhos dele; morro por não poder deitar a minha cabeça no ombro dele; morro por não poder beijá-lo na têmpora e fazer-lhe uma festinha na cara quando o sinto triste; morro por não poder adormecer abraçadinha com a minha perna por cima da dele; morro por não ter aquele esticar de braço tão espontâneo dele que serve para eu aninhar a cabeça; morro por não poder acordar com os beijos de 'Bom dia'; morro por não poder chorar de tanto rir com as rambóias sempre sempre tão animadas com o gang do Rêgo; morro por não poder dar-lhe 'kenkos' quando ele começa a pategar; morro por ter de fazer-me de forte quando lhe dou o último beijo antes de embarcar ... Enfim, morro por não poder sentir de mais perto a honestidade do amor que eu sei que ele sente. E por sentir essa honestidade é que tudo se torna tão insuportável a 2000km de distância.
Apesar de ser um pardalito lindo que, sem saber, tem conseguido trazer de volta o melhor de mim, morro por não podermos fazer parte da vida um do outro como gostaríamos.

Oh, I have bought the mansion of love,
But not possessed it, and though I am sold,
Not yet enjoyed.
[Romeo & Juliet, Shakespeare]

É tudo isto que me consome ... o não poder estar presente e não poder fazer parte da vida das pessoas que eu quero e que eu tenho a certeza que me querem nas suas vidas.

Como tenho a necessidade de repartir todas as férias e folgas entre Fundão e Lisboa (o que proporciona um mísero par de dias em cada sítio), a ginástica feita entre cada Chegada e Partida tem sido um autêntico desgaste psicológico, porque aquando a primeira inevitavelmente já se está a pensar na segunda. Já nem aquela coisa do 'aproveita enquanto cá estás' e 'não sofras por antecipação' funcionam ... Aliás, há já uns meses que a minha cabeça e coração ficaram em Portugal.
Foi uma das coisas de que me apercebi quando a Patrícia e o Vasco me vieram visitar no início do mês. Não sou ninguém aqui se não tiver por perto alguém que me conheça realmente ... Nem isso eu consegui gerir enquanto cá estiveram. E o pior foi ter de aceitar que, de facto, mudei ... e muito. Entre as coisas que poderão vir a ser positivas nesta mudança, apercebi-me que me tornei numa pessoa triste, apagada e desmotivada em contrariar certos estados de espírito ... Infelizmente, uma coisa leva à outra e os momentos em que sinto que estou cá, e dos quais quero tirar proveito, são mesmo muito poucos. Muito poucos, mesmo.
Tenho medo de me ter perdido e de não conseguir voltar a encontrar a pessoa que era.
[Quase tenho vontade de chorar outra vez ao dizer isto por ser tão verdade ... mas é melhor não, porque hoje não tenho o Vasco encostado ao meu lado para me secar as lágrimas como fez há umas semanas atrás.]

De volta à conversa que tive com a Anna, senti cumplicidade quando ela afirmou que não vale mesmo a pena abdicarmos de certas coisas e arriscarmo-nos a perdê-las se de facto não nos sentirmos bem onde estamos.
The rest is bullshit, Sara! 'Cause if you're happy, you'll overcome everything easier ...

Não querendo desprestigiar as amizades que fiz desde o início do curso, tenho de dar razão à Anna uma vez mais quando ela se referiu ao Samuel e, sobretudo, Elsa e Raquel (com quem moro desde que aqui cheguei) como 'amizades anti-natura' que nasceram por força das circunstâncias. Nem eu as escolhi, nem elas a mim ... 'teve de ser'.
Conhecemo-nos bem umas às outras e eu adoro-as (!!!), mas só me lembro de precisar realmente do abraço delas uma vez ... que foi precisamente na visita surpresa da Patrícia e do Vasco, porque foi a primeira vez que me senti estranhamente perdida e desprotegida.
Sempre fui assim ... carapaça semi-rígida, pouco aberta e dada a grandes amizades que nascem da tal forma 'anti-natura'. Ou surgem por afinidade de alguém que me é muito próximo, ou então a coisa demora ou pura e simplesmente não acontece.

Resumindo e como cantava o Variações ... muda de vida se não tu não vives satisfeito.

E eu já não vivo satisfeita há muito tempo ...