6 de setembro de 2008

ritual

Guina o carro naquela curva meio apertada, sobe aquele topozito antes do portão e quando entra na recta final, tira o cinto e desce o vidro para absorver os cheiros e os sons ... ritual religioso dela sempre que entra na Quinta pela parte 'debaixo'. Flores da mãe Ana do lado direito e vinha do avô Sebastião do lado esquerdo, agora a cargo do pai Fernando.
Lá ao fundo já consegue ver as tílias, que protegem do sol o Discovery da mãe Ana, e metade da casa que é abraçada pela hera que ali está desde que se lembra da sua própria existência.
No fim da recta, infelizmente, já não vê a Aida e o Alvim deitados, cada um para seu lado ... Mandavam um pincho sempre um carro familiar se aproximava.

Vira o carro para a direita e, no fim da rampa da entrada de casa, vira novamente mas desta vez para a esquerda e estaciona por baixo do pinheiro onde a mana Marta, ou o avô Sebastião, costumam deixar o carro.
Desliga o motor, puxa o travão de mão, abre a porta, agarra nos sacos mais leves e sobe a rampa.
Em frente à entrada de casa, prepara-se para um outro ritual ... Como costuma ter as duas mãos ocupadas, não se dá ao trabalho de poisar os sacos e, levantando a perna direita até à altura da cintura, manda uns quantos empurrões no trinco com o pé ... É rara a vez que consegue abrir a porta à primeira desta forma.

Entra e chama pela ... Xxxxooo-oy!
Aparece a Joy a dar o alerta de que alguém entrou em casa, mas depressa entra em completo desvairo a correr sem saber para onde, a ganir de tanta felicidade por ver a agora 'outra' dona de quem não sente o cheiro há meses. Continuará a ganir nos próximos quinze minutos, garantidamente.

Atravessa o hall e entra na cozinha, largando finalmente os sacos junto ao móvel antigo (assim como toda a decoração da casa) que está à esquerda mal se entra.
Do outro lado está alguém que, sem pressa, entala a colher de pau no texto da panela da sopa, agarra no pano para secar as mãos e se vira dizendo ...
- Então minha Shhhá-rrrinha ... já chegou?

E num tom de voz completamente ridículo carregado de mimo e saudade, responde com um sorriso ...
- Shim, mãe!

Está de volta a casa.

Falta uma semana.